© carlos lobo

China, Japão, Coreia do Norte e Líbano contam-se entre os países que Carlos Lobo trabalhou no seu percurso artístico. Silenciosamente, a par de uma atividade docente e nos projetos musicais Clockwork e evols, tem vindo a afirmar-se como uma das presenças fundamentais da fotografia portuguesa do século XXI.

The Dew of Little Things é a materialização em livro (publicado em Fevereiro de 2016) de um trabalho desenvolvido em Trípoli e Beirute no ano anterior. Aqui prevalece um sentimento nostálgico que transmite um contraste fraturante entre o cosmopolitismo destas cidades, com histórias milenares, e um presente condicionado por um sobressalto contínuo por questões identitárias, religiosas e geopolíticas.

Carlos Lobo é um formalista. Este livro apela a uma discursividade através da forma. Há uma beleza incandescente nos detalhes que nos apresenta. A ausência quase completa de pessoas (quando aparecem é em contexto urbano, como que furtivamente passando) é hipostasiada nos espaços em que essa presença se espera e anseia: mesas de café vazias, interiores desocupados, prédios-fantasmas. Uma espera permanente – uma mão com um cigarro que saí de um carro sublinha-o. Os carros, na verdade, são protagonistas na narrativa. Amachucados, riscados, envelhecidos ou em pleno bulício, são sinal de ocidentalização desgastada.

Os muros e as paredes são evidências de cravejamentos conflituosos mas também de meios de comunicação comunitária. Um caldo historicamente carregado.

As duas imagens finais da publicação sublinham a evanescência de um sentir profundo: cadeiras de plástico em equilíbrio instável num interior luxuoso de mármore, e o mar como esperança e ideia de infinidade. O ser agora e o ser intemporal, num equilíbrio de que não conseguimos sequer imaginar os contornos quotidianos. Sem juízos moralistas ou politicamente corretos, este livro é, acima de tudo, uma oportunidade questionante para se olhar uma realidade tão mediaticamente próxima, quanto efetivamente desconhecida.

Miguel von Hafe Pérez