Review "Still There" por Alexandra João Martins

Still there é o título da exposição de Carlos Lobo, patente até 11 de Junho no Palácio Vila Flor, em Guimarães. O artista encontrava-se em Beirute aquando da queda do governo Libanês, a 12 de Janeiro de 2011, mas o trabalho de Lobo não pretende um testemunho directo desse acontecimento ou das manifestações subsequentes. Aliás, resiste-lhes continuamente e aí reside o seu principal interesse. A figura humana é quase inexistente e os rostos sobrevivem apenas cristalizados em posters ou fotografias. Todos os outros corpos serão vultos.

Lobo levanta uma cartografia visual do território libanês, distanciado suficientemente para não se tornar voyeur mas, ainda assim, suscitando relações de reconhecimento ou identificação no espectador. As noções de destruição e caos são evidentemente convocadas nestas imagens de paisagem urbana, porém Carlos Lobo subverte-as, através da prática artística, depurando harmoniosamente formas e cores. O tecido urbano de Beirute deixa-se corromper pelos tons pastéis, pela limpidez e pela geometrização rígida destas composições.

“Para saber, há que imaginar” [1], diz Didi-Huberman, sem simplificar a imaginação ao acto de des-realizar, em Imagens, apesar tudo, texto que refuta a ideia de imagem-toda. Em planos recortados e /ou descontextualizados, Lobo dá a ver o conflito de guerra no Líbano através de vestígios: carros abandonados, desenhos naïf em paredes baleadas ou edifícios arruinados. Tal como na série capturada no Japão, em 2011, após um tsunami, o artista procura marcas da destruição porque, como o próprio diz, “faz(em) parte da cidade” [2].

Beirute é uma cidade em mutação permanente e sem um tempo. Alguns edifícios ainda não estão construídos ou reconstruídos [3] mas já estão destruídos, ainda não foram mas já não são. Se é verdade que a destruição pode potenciar a recriação, não será menos verdade que se pode tornar numa espécie de ciclo vicioso da morte. Metonímia para o estado das coisas, estas fotografias surgem como matéria de inscrição da constante instabilidade sociopolítica.

Distanciando-se, Lobo desconstrói a imagem que o regime libanês tinha do seu país, bem como a imagem que o Ocidente produz do Líbano, tal como acontecera em Through the pale dawn [4], exposição acerca da Coreia do Norte, comissariada por João Pinharanda para a Fundação EDP. Num gesto subversivo, o espectador é convidado a habitar as representações destes espaços aparentemente desalmados, colocando em problemática a noção de não-lugar como espaço de transição, sem passado nem futuro, conferindo-lhes uma presença, um habitar.

À semelhança do que acontece no road movie Je veux voir, de Joana Hadjithomas e Khalil Joreige, que Carlos Lobo importa em parte para o segundo piso desta exposição, o artista deambula pelas ruas da cidade, descobrindo e construindo o seu próprio discurso espacial, resultante de uma experiência íntima e fulgurante com aquele lugar. Catherine Deneuve é a protagonista do filme lançado em 2008, após a guerra do Líbano, sequela do conflito israelo-árabe, ocupando o lugar do estrangeiro, do outro, que se relaciona com o nativo, Rabih Mroué, actor libanês, num exercício constante de alteridade.

Lado-a-lado com Unity (2016), uma brevíssima mas espantosa filmagem, reproduzida em loop e slow motion, na qual vários homens se vão juntando a um outro, reprimido por um jacto de água de alta pressão. O plano de detalhe e a cadência lenta das imagens em repetição evidenciam a gestualidade dos corpos: por um lado os braços ao alto do homem que se tenta defender, por outro os vários braços que o abraçam e que juntos o resguardam e engolem formando um corpo uno. Cinco anos após a viagem, Lobo cria e mostra este vídeo tendo em mente que o conflito no Líbano persiste até hoje, opondo apoiantes anti e pró-governo sírio e despoletando um sectarismo reliogoso violento. No mesmo piso, uma espécie de arquivo em exposição reúne estudos do artista sobre fotografia e apontamentos do seu próprio processo de criação.

Ao situarem-se “entre uma situação quase documental e a exploração estética” [5], as fotografias de Carlos Lobo enquadram-se num regime imagético “negociado entre as imagens ostensivas da arte e os sintomas sociais, culturais e políticos” [6], proposto por Rancieré. Nem puros documentos, nem pura arte, as ditas imagens metamórficas potenciam relações analógicas infindáveis e por vir, congregando em si um regime duplo da imagem como símbolo (remissiva) e como interruptora do fluxo mediático (dissemelhante). [7]

Através da fotografia, inscrever na história marcas de um tempo, fisicamente removíveis ou deléveis, contribuindo dessa forma para a possível edificação de uma memória colectiva e para a reconstrução identitária do país. Ainda estão lá.

Alexandra João Martins
Notas

[1] DIDI-DIHUBERMAN, Georges. Imagens, apesar de tudo. KKYM, Lisboa, 2012.
[2] LOBO, Carlos. Folheto de sala da exposição BES Photo 2011, no Museu Colecção Berardo. Lisboa, 2011.
[3] Muitos deles teriam sido arruinados durante Segunda Guerra do Líbano, ocorrida em 2006
[4] PINHARANDA, João. Folheto de sala da exposição Through The Pale Dawn, no Museu da Electricidade. Lisboa, 2015.
[5] ALMEIDA, Marta Moreira. O Olhar de Carlos Lobo. Colecção RAR, Porto, 2013.
[6] CARDOSO, Ana. Sobre o livro “Le Destin des images” do filósofo francês Jacques Rancière. Artecapital.net, 2009. Disponível em: http://www.artecapital.net/perspetiva-85-ana-cardoso-o-destino-das-imagens
[7] RANCIÉRE, Jacques. O Destino das Imagens. Orfeu Negro, Lisboa, 2011.

In: https://www.artecapital.net/exposicao-485-carlos-lobo-still-there