Far Far East

A série cobre cinco anos de trabalho (foi elaborada entre 2009 e 2014) e três países do Extremo Oriente (China, Japão e Coreia do Norte). A linha de tempo não nos introduz tanto numa visão diacrónica, porque em cada país o trabalho é resultado de uma só viagem, mas sim no itinerário de três realidades civilizacionais que podem ser entendidos como casos-limite/casos-exemplares: a República Popular da China, fornece imagens (“em tempo real”) da desagregação de um sistema e do nascimento de outro, a um ritmo de crescimento que, em 2009 se aproximava já dos 10% ao ano; o Japão, em plena travagem de crescimento, depois de décadas de liderança económica no contexto quer do Oriente quer do Ocidente, surge abalado pela prova extrema do Maremoto de 2011; finalmente, a República Popular da Coreia do Norte, vivendo como que uma realidade paralela ao exterior e a si mesma, dominada pelo preconceito do que já se sabe e do que já se viu.

Carlos Lobo desmultiplica cada uma destas realidades desmanchando a sucessão de lugares-comuns que temos sobre elas. Mesmo quando uma das suas imagens coincide com aquilo que já sabemos (ou que já vimos) de um lugar e de uma coisa (o que actualmente é muitas vezes sinónimo) ela trás em si (ou nas imagens seguintes ou nas anteriores) os elementos de desagregação de toda a normalidade esteriotipada. O uso (não indiferente mas alternado) da cor e do preto e branco, da imagem original e apropriada, a aplicação de diferentes tipos de olhar (poético, político, documental...) mas também técnicas (indo do tradicional formato 35mm ao 6x7, do analógico ao digital, da máquina profissional ao iphone) sobre as mesmas ou diferentes temáticas, os ritmos da paginação (com sucessivos momentos de repouso e de esfriamento, de empenho e de violência visual) são recursos que Carlos Lobo usa para conceber o puzzle de soluções inesperadas destas três séries fotográficas.

O olhar de Carlos Lobo não é inquisitivo, violento, incómodo ou analítico; é rápido, distraído, regista elementos menores da realidade, as suas margens, desc(onc)entra-se dos motivos mas essa é a sua dupla estratégia de confrontar os observadores (nós) e de confrontar os motivos (humanos ou não) colocando-os perante a eminência de não conseguirem sustentar o olhar do fotógrafo sem desmancharem a pose que deviam assumir, colocando em causa o papel que seria suposto representarem em cada cena de uma narrativa que é colectiva e que é individual, responsabilidade de quem (se) dá a ver e de quem vê. Carlos Lobo, no momento do registo, foi esse observador sabotando o seu próprio preconceito; agora obriga-nos a nós ao mesmo exercício.

João Pinharanda