Coreia do Norte
Fora de Cena

Encenação é um termo com aplicação mais vasta do que simplesmente a disciplina para a qual foi criado, o teatro. Na pintura e na fotografia (artes que fixam a imagem) como no cinema, no vídeo e mesmo no comportamento social de cada um de nós (artes que, como o teatro, lidam com o movimento, o espaço e o tempo) é relevante o grau ou a consciência com que cada gesto e fala, posição e relação entre espaços, corpos e objectos ou entre cores, luzes e texturas são definidos.
Um dos lugares mais comuns para falarmos de fotografia refere a encenação (ou seja, a composição, a construção deliberada, a artificialização da tomada de vista, pelo fotógrafo, ou da pose, pelo modelo). Se a imagem fotográfica resulta, sempre, do olhar do fotógrafo (que, muitas dirige activamente os modelos, cria os cenários e define as iluminações) sobre o que vê; muitas vezes, também (sempre?), a encenação é desencadeada pelo próprio motivo ou modelo: encenação prévia (nas arquitecturas, nas decorações dos espaços) ou encenação simultânea ao olhar do fotógrafo (sabemos e muitas vezes pedimos aos corpos fotografáveis que se disponham para a fotografia) – e nem os animais (v. John Berger), provavelmente, nem as paisagens naturais, se apresentam inocentes perante as máquinas que os registam.

A notícia de uma viagem fotográfica à Coreia do Norte (como a de um relato escrito ou de um testemunho oral de uma viagem a um tal destino) cria no espectador (no leitor ou no ouvinte) uma expectativa imediata, mais intensa do que a que nos move perante a maioria dos objectos oferecidos à nossa observação. Também o espectador encena o seu olhar (e prepara o seu corpo), também ele dispõe de modos diferentes (velocidades específicas, diferentes estratégias desejantes) para ver.
E é de tal modo forte o pré-conceito que fazemos do grau de encenação do real com que o país se apresenta (quer ao olhar exterior quer ao interior) que nos dispomos, nesse desejo de ver, apenas a confirmar algo já sabido.

No caso de sabermos estar a ver imagens oficiais, emitidas pelos organismos de propaganda do Regime, desejamos descobrir em cada imagem o truque (colagem, montagem, photoshop, real encenação coreográfica dos líderes, das massas populares, do exército e seu poder de fogo, etc.) que nos desvelará/revelará os elementos dessa encenação máxima, descobrindo-os segundo uma vontade de denúncia e desmascaramento. No caso de estarmos a ver imagens registadas pelo olhar livre, não oficial nem oficioso, de um ocidental, esperamos confirmar em que medida elas poderão revelar, denunciar, o conjunto de truques encenados. Resta saber se Carlos Lobo abordou o(s) objecto(s) da sua atenção com essa intenção linear, se esse é o seu interesse como fotógrafo contemporâneo, situado no movediço território do documental e do autoral, do poético, do social e do político. A alternativa entre singular e plural, na definição do campo de trabalho de Carlos Lobo, é um ponto importante para percebermos essa intenção: a atitude do fotógrafo não é única porque o seu objecto também não é único. A primeira vitória de CLobo sobre o conceito que a CNorte tem/dá de si mesma é ajudar-nos a vencer o pré-conceito que temos da Coreia do Norte. De facto, a realidade da Coreia do Norte não é uma, por mais homogénea que se queira dar a ver e seja vista. Nem encontramos a verdade na superfície dessas imagens nem a mentida debaixo delas. Dessa constatação resulta o trabalho que aqui se apresenta. Em que medida o grau de intensidade com que os dispusemos a ver imagens que esperávamos estereotipadas resiste à observação das imagens seleccionadas? De que modo elas confirmam ou desmentem, sabotam ou empenham a nossa relação com o(s) objecto(s) da atenção de Carlos Lobo, que narrativa ele nos deixa?

O voyeurismo, que a fotografia sempre estimulou (ver o que outro viu, mostrar o que apenas eu vi, ver o que os outros não querem que eu veja) desenvolve-se aqui numa direcção inesperada. A Coreia do Norte cria uma imagem de si mesma: hierática e heróica, governada por líderes brilhantes e corajosos, povoada por cidadãos obedientes felizes e saudáveis. Sabemos, por múltiplos testemunhos e indícios objectivos que por detrás dessa imagem solar se esconde uma terrível floresta de sombras. Devemos estar cientes de que esta série de imagens não resulta nem de uma aventura de espionagem nem dá pistas de jornalismo de investigação mas percebemos que Carlos Lobo nega entregar-se à versão oficial. Tem que o fazer seguindo itinerários, destinos, tempos de viagem e de observação pré-estabelecidos pela agenda do turismo estatal; fotografando onde o deixam fotografar mas não tanto fotografando o que o convidam a fotografar, nem segundo as encenações programadas para a fotografia. A pluralidade de pontos de vista que Carlos Lobo nos dá da Coreia do Norte tem a ver com a estratégia de negação que referimos – mas é uma estratégia que tem muitas semelhanças com a emprega para desmontar qualquer outra construção da realidade ou regime, notoriamente, os esteriótipos que fazemos dos países, seus usos, costumes, arquitecturas, paisagens... No caso da Coreia do Norte esse confronto, pelas razões históricas e políticas que apenas enunciámos mas que são profundíssimas, resulta ainda mais radical. Há sombras mesmo nos motivos de luz (e por maioria de razão nos desvãos de interiores vazios), espaços por preencher nas praças pensadas para encher de gente nas gigantescas celebrações ou nos pátios das habitações, a arquitectura recorda um imenso teatro de construções precárias. Há jogos temporais entre as imagens apropriadas dos álbuns da Guerra da Coreia e as fotos a p/b de situações humanas ou paisagísticas actuais, como entre esta realidade vivida da viagem e reconstruções de cenas históricas que fazem a mitologia do regime. Há lugares e coisas ao abandono e lugares luminosos, gente feliz e gente melancólica como em todo o lado.

É a partir destes dados, encenados por Carlos Lobo, que somos obrigados olhar de novo, segundo as regras de uma nova distância crítica, a Coreia do Norte. Passamos a cortina de cena e olhamos para trás do palco, Carlos Lobo coloca-nos fora de cena para que possamos adivinhar, não o real construído pelo regime, não o real construído pelos que olham de fora, mas o real imaginado das pessoas que alimentam, nesse palco, a coreografia delirante que alimenta a nossa curiosidade.

João Pinharanda
Lisboa, 18 Janeiro 2015